Sobre Carlos Nina

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                                                                                                                               Carlos Magno Galvão Carvalho e Carlos Nina

 

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A Associação dos Magistrados do Maranhão mandou celebrar missa em sufrágio da alma do juiz estadual Armindo Nascimento Reis Neto, precocemente falecido em acidente de trânsito. Após a celebração o presidente da AMMA, Gervásio Protásio dos Santos, falou sobre o colega. Contou um episódio ocorrido poucos meses antes do acidente.

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Carlos Nina

Nos primeiros meses da “gloriosa” muita gente foi presa. Alguns por corrupção, mas a grande maioria apenas porque pensava diferente do novo ideário, ou simplesmente porque era apontado como “subversivo” ou “comunista” por qualquer um dos golpistas ou seus aliados.

Os grandes corruptos ficaram de fora. Muitos se integraram ao movimento e se profissionalizaram nessa arte que os fez sobreviver no poder bastante tempo...basta ler o noticiário político.

Naquela época eu era estudante do colégio Marista, onde Khalil Mohana era professor.

Despertava-me o interesse o jornalismo e cedo me envolvi no meio, quer atravessando madrugadas nas oficinas do Jornal Pequeno, fazendo revisões e acompanhando de perto a composição e a impressão das páginas, quer participando das impagáveis reuniões promovidas no Jornal do Maranhão, quase sempre nas manhãs de sábado, quando se tinha a oportunidade de ouvir debates proveitosos sobre os mais diversos temas, graças à presença de jornalistas e intelectuais amigos do Prof. Jose Maria Nascimento, então Diretor daquele jornal, do qual, mas tarde, por indicação do Pe. João Mohana, amigo e conselheiro nas horas mais difíceis da minha vida, vim a ser o Secretário, bem como Assessor de Imprensa da Arquidiocese de São Luís.

No Marista, Khalil era um professor muito querido e tinha, involuntariamente, grande influência nas eleições do Grêmio Cultural Coelho Neto, do corpo discente do Colégio.

Tentei disputar essa eleição e não hesitei em fazer até artigo, que foi publicado pelo Jornal Pequeno, no qual critiquei aquela influência de Khalil.

Perdi a eleição, mas nunca Khalil mostrou qualquer ressentimento pelo artigo. Muito ao contrário. Foi um dos professores que intercederam junto ao Diretor para que este não levasse adiante sua decisão de me expulsar do Colégio “por ter levado para fora dos muros da Escola questões internas”, conforme havia anunciado publicamente na sessão de posse da Diretoria do Grêmio.

O interesse pelo jornalismo levou-me a continuar escrevendo no Jornal Pequeno, em textos de fazer tremer qualquer gramático, tantas as incorreções, certamente bem mais numerosas do que as que cometo hoje.

Mas escrevia o que pensava. E pensava muito mal sobre o que estava acontecendo.

Então fui chamado ao SNI. Foi um convite macio, graças a um amigo que se comprometeu com o responsável pelo Órgão de me apresentar sem necessidade daquelas visitas que comumente eram feitas nas caladas da noite e arrancavam da cama pessoas pacatas, muitas delas para nunca mais voltar.

Ali fui recebido com cordialidade e informado de que o Serviço vinha acompanhado minhas atividades “subversivas”.

Na verdade, qualquer pessoa, que pensando diferente dos “revolucionários”, ousasse dizer isso ou, o que era pior, publicar, era um “subversivo”, “um comunista”.

Se falasse de Marx, ainda que nem tivesse sequer chegado perto de qualquer escrito daquele filósofo, aí a coisa era pior. O mesmo acontecendo se a referência era a Lênin, Stálin e seus respectivos “ismos”.

Então, eu era “subversivo” e “comunista”.

Subversivo, vá lá, porque todo aquele que pretende mudanças é um subversivo. Mas, para a “gloriosa”, “subversivo” tinha um conceito próprio.

Ser chamado de “comunista” era um elogio que me comovia, mas que não podia aceitar até por respeito àqueles que o eram de fato e por isso sofriam as mais cruéis perseguições.

Eu não era comunista, nem socialista, nem capitalista, nem qualquer outro “ista”. Era apenas um jovem revoltado, cujas idéias poderiam até ser as mesmas do comunismo. Mas se por isso eu fui ou sou comunista, Cristo também foi. E muito outros, que, aliás, declaram aos quatro cantos que não o são. Ademais, o pensamento dos indivíduos, suas ideias não são propriedades de nenhuma ideologia.

Pois bem, lá no SNI queriam saber quem mandavam eu escrever os meus artigos... E perguntaram insistentemente, sugerindo até a resposta: Khalil Mohana era meu ventríloquo.

Neguei. Não era. Era. Não era. Não era. Era. Não era.

A revolta que me suscitou a minha impotência diante daquela violência me pôs lágrimas nos olhos. Foi a primeira e única vez que tive a sensação de experimentar o ódio.

Nunca esqueci esse dia, para poder avaliar o quanto sofreram aqueles que tiveram pior sorte. E comecei a pensar muito pior daquele Governo que, não raro, como naquele caso, se utilizava da ingenuidade de alguns para tentar dar credibilidade ao movimento que acabou por se transformar num dos períodos mais negros da história da corrupção e da violência no Brasil.

Hoje reconheço que Khalil foi meu mentor. Alimentou-me a inquietação e, com sua didática empolgante, levou-me aos livros de História, de Literatura, de Filosofia, de Economia, de Política. E sou muito grato por isso.

Fui subversivo – e espero que ainda o seja – por lutar por mudanças positivas. E Kalil tem sido muito mais, pois, no seu mister de professor, nunca se limitou a contar história, fazer registro de datas, de nomes e de lugares. Provocou a interpretação, a crítica e a pesquisa, ensinou-nos a ouvir, ler e pensar criticamente.

Fui comunista tanto quanto Kalil, que, também, por sua conduta, era apontado como “comunista”, ou seja, estava entre aqueles que eram perseguidos como os grandes culpados pela desgraça nacional.

Que bela desculpa para enganar um povo pobre, sem instrução e maciçamente católico!

Resolvi saber o que era o comunismo. Li, conversei com alguns comunistas e cresceu a admiração que já lhes tinha. Mais isso também não me fez comunista.

Continuei lendo até chegar ao socialismo democrático de Giles Radice. Mas isso é uma outra história.

Depois de alguns anos fora do Maranhão, voltei iniciei minha vida na advocacia e resolvi interferir nos destinos do nosso órgão de classe, mergulhando na desorganização, na omissão e no mais completo alheamento às questões da classe e da sociedade.

Torci pela vitória de José Carlos Sousa e Silva e vi a Ordem começar vida nova, apesar das circunstâncias terem-lhe dificultado uma atuação eficiente.

No pleito seguinte, concorri junto com o Prof. Doroteu Ribeiro, de quem vim a ser Secretário, cargo que me permitiu tomar algumas iniciativas, dentre elas um Curso sobre os Direitos da Mulher, para o qual convidei Maria Aragão.

Admirava-a pela sua fibra, pela sua coragem pela sua determinação e, acima, de tudo, pela sua coerência e lucidez.

Começamos uma convivência mais amiúde, que me permitiu, então, ver a infinitude das qualidades pessoais de Maria Aragão, aquela comunista cruel que fazia tremer os beatos e cujo nome era pronunciado em sussurros cautelosos, com olhares furtivos aos arredores.

Assim, foi minha primeira convidada para o lançamento da Chapa “Viviane Pereira”, com a qual concorremos à sucessão do Prof. Doroteu Ribeiro na OAB-MA. Maria atendeu ao convite e muito me envaideci com sua presença.Fotografia

Desde o inicio de meu primeiro mandado, em 1985, temos desenvolvido um trabalho conjunto que me tem permitido aprender com Maria Aragão como não havia aprendido com qualquer outra pessoa.

Durante esse convívio enriquecedor nunca vi Maria Aragão sequer convidar alguém para ser comunista ou integrar seu partido. Sempre a ouvi dizer com firmeza que era comunista.

Uma de suas grandes lições é que, apesar de comunista, sabe respeitar aqueles que não são comunistas, mas que, pertencentes a qualquer outra agremiação política ou religiosa, preocupam-se honesta e coerentemente com os problemas do povo brasileiro ou de qualquer lugar. E não hesita em sentar na mesma mesa para com eles dialogar, desde que esteja a lhes unir a busca de solução dos graves problemas sociais, políticos e econômicos que nos afligem.

Mas, para mim, a mais bela de suas lições e da qual mais me valho é o seu espírito de luta, sua incansável capacidade de não desistir.

Muitas vezes, diante da impunidade, da violência desenfreada, do abuso de poder e de tanta sordidez que se vê no dia-a-dia, sou tentado a desistir.

Até na vida profissional, quantas vezes tenho pensado em desistir diante das mazelas que a vida forense nos apresenta.

Ai vem a lição de Maria Aragão, do alto de seus 78 anos, perseguida, torturada, sem jamais recuar, fazendo de cada dificuldade um estimulo cada vez maior.

Assim tenho feito. Transformo todas as manobras e arbitrariedades que enfrento em estímulos eficazes, graças a Maria Aragão, a quem muito devem várias gerações do Maranhão.

Assim o farei. É o mínimo que devo ao exemplo dessa mulher ao mesmo tempo simples e inexpugnável na firmeza e coerência de suas ideias.

Dela se tem dito que é mais homem do que muito homem.

Não é verdade. É só mulher. Mas mais mulher do que muito homem é homem.

Se tivesse que voltar hoje ao SNI para dizer se era ou não comunista, talvez dissesse que sim, tentado pela honra de ser como Maria.

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Carlos Nina

Quando li a primeira edição de Minha razão de viver – Memórias de um Repórter, de Samuel Wainer, uma afirmação sempre ficou na minha memória. Não me lembro exatamente das palavras do texto, mas a mensagem que me ficou foi a de que Wainer teria dito, expressamente, que a corrupção no Brasil estava vinculada diretamente às empreiteiras. Salvo engano, usava o termo construtoras. Estou usando, agora, a palavra empreiteiras porque é esse o termo usado e repetido com clareza na reedição do livro, com os acréscimos que o Autor autorizou que fossem feitos depois de decorridos 25 anos de sua morte, em 1980.Samuel_Wainer_3_copia