Sobre Alexandre Maia Lago

Captura de tela de 2017 06 28 00 10 21ALEXANDRE MAIA LAGO é advogado graduado pela UFMA desde 1993. Um apaixonado por história, filosofia e literatura, possui uma coluna dominical no Jornal Pequeno dedicada a assuntos literários.

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 “No dia seguinte ninguém morreu”. Nos seguintes também não. Doença, queda mortal ou tentativa de suicídio perderam a relevância. Nem acidentes automobilísticos, esses eficientes colaboradores da morte, logravam bom êxito nessa tarefa. Nada mais despachava o homem deste mundo.

O chefe do governo pede “comedimento e sentido de responsabilidade nas avaliações e interpretações” do extraordinário fato. O arcebispo avaliou o caso com a cautela devida por representante de tão antiga instituição. Ao espanto inicial segue a alegria, muita alegria... Após inúmeras evidências constata-se que nesse país não há mais mortes.

Sendo possível alegria e dissabor surgirem da mesma penumbra, começam então os problemas. As primeiras reclamações surgem do ramo funerário. Do que viveriam agora, “brutalmente desprovidos de sua matéria-prima?”. Diretores de hospitais se deparavam com corredores abarrotados de mais e mais doentes, e isso só se agravaria. Lares da terceira idade já não sabem o que fazer com os hóspedes, doravante eterna canseira aos seus cuidadores. Seguradoras se assombram, pois, sem mortes, nada de seguros, embora alguns, para tirar vantagens da situação, invocassem interpretações favoráveis a contratos já firmados. Esses estavam mais vivos que nunca...

A eternidade se estabelecia na Terra, enfim. Mas parece não haver lugar para perfeições por aqui.

A Igreja Cristã, muito poderosa nesse país, se preocupa. Outras religiões também estremecem, suspeitando que sem a morte, morreriam...

Uma família inaugura a ação de levar seus moribundos ao outro lado da fronteira para morrerem. De imediato, a imprensa e toda a gente vituperam contra esses familiares por tão desumano ato. Mas, ao perceberem todos que, pensando bem, ficar com idosos e parentes no morre-não-morre, sendo cuidados para sempre... O que era infâmia, converte-se em boa ideia...Logo seguida por muitos.

Então, despejar moribundos além-fronteiras tornou-se grande negócio, explorado por uma organização, a MAPHIA, assim mesmo, com ph, para não se confundir com a outra já bastante famosa. Agora, Estado e MAPHIA, antes concorrentes, se unem em nome da paz pública...

Economistas levantam questões acerca do futuro da Previdência, e republicanos aproveitam para mostrar que as arcas do Estado não suportariam a manutenção de tantos príncipes imortais ao longo do tempo...

Uma reviravolta: a Morte anuncia por carta lida na TV, em horário nobre, que as pessoas voltariam a morrer. Porém, haveria doravante aviso prévio de uma semana a ser enviado pelos Correios.

Logo, os envelopes cor violeta começam a chegar... E não adiantava esquivar-se, pois a morte era para lá de astuta.

Pensaram até que esse sistema de aviso de morte serviria para reconciliações de amizades rompidas, dívidas serem saldadas, recomendações feitas... Mas a natureza humana fez desses dias de brinde uma dedicação à esbórnia desenfreada. Compromissos e pendências que ficassem para ser cobrados no além...

Assombrados com a eficiência das cartas que chegavam, decidiram encontrar a indesejável remetente. Não conseguiram. Mas fizeram uma importante descoberta: a morte é mesmo uma mulher.

As cartas continuavam. Um dia, uma foi devolvida. Estranho. A Morte reenviou, e outra vez foi devolvida. Quem era esse a desafiar a morte? Logo, ela soube tratar-se de um violoncelista com 50 anos recém-completados, quando não deveria ter passado dos 49.

Daí por diante, ela vai tentar entregar-lhe, pessoalmente, a carta. Disfarça-se de bela para facilitar a aproximação. Consegue. Mas, pelo caminho, a vida apresenta à Morte uma surpresa que a enlaça, fazendo-a, então, mudar de planos...

A INFALÍVEL

Acusá-la de negligência no ofício é sustentar o falso testemunho. Pois, desde o fraticídio inaugural seu trabalho não cessa, e segue desmoralizando a afirmação de haver exceção a toda regra. Com ela não.

Insensível a gritarias, apelos, choradeiras por crianças ou velhos, recém-casados ou primogênitos, na hora dela, nem preces nem promessas. Às rezas, se finge de morta. Pode até titubear, parecer desistir, mas é só pra fazer graça, pois ela sabe o desfecho...

Sempre sorri, mas não sozinha, têm os que por ela torcem e dela sobrevivem, até o dia em que também são lembrados...

Inegável ser o homem um dedicado auxiliar seu, e sem essa preciosa contribuição externa sua produtividade ficaria a desejar. Para ela, é claro.

Tentar decifrar essa macabra senhora gerou variadas versões e crenças. Uma delas nos oferece a sensaboria de continuar por aqui cumprindo o ciclo da natureza, como querem os céticos. As religiões, pelas mãos de elevada teologia ou da mais rasteira prédica, nos apresentam a perspectiva do Paraíso, sempre um grande conforto, por certo. O inconveniente é que para alcançá-lo, só morrendo.

Mesmo uma longa vida não é senão umas poucas décadas permeadas de angústias, aflições, desilusões, e, no final, a contenda estéril contra a morte. Do caldo original à consciência foi um longo caminho. Desaparecer sem mais, seria um gracejo e tanto do Universo. 

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