Sobre Alexandre Maia Lago

Captura de tela de 2017 06 28 00 10 21ALEXANDRE MAIA LAGO é advogado graduado pela UFMA desde 1993. Um apaixonado por história, filosofia e literatura, possui uma coluna dominical no Jornal Pequeno dedicada a assuntos literários.

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O artesão Itaro tinha o ofício de fazer delicados leques e possuía o dom da previsão. Desde a infância, esses sortilégios vinham sempre após ele matar algum animal ou inseto, tanto fazia. Aconteceu, também, quando seus pais aguardavam o nascimento de um irmão para ele e, no entanto, sua previsão era de uma menina com deficiência visual. E, assim, nasceu Matsuda.

Os pais cogitaram afogar a filha recém-nascida para livrá-la de sofrimentos, mas o irmão a salvou, sem que ela soubesse jamais dessa nova vida que ele lhe concedeu.

Já adulto, o fazedor de leques levava a reservada e tão disciplinada vida dos orientais, sendo um homem de raros diálogos com Matsuda, servido pela criada, que surgira um dia, ninguém sabia de onde, e ficou na casa como um bicho de estimação ao qual se afeiçoaram. Principalmente à menina Matsuda, a quem eram dispensados cuidados carinhosos.

Saburo era oleiro e dedicava-se ao cultivo de um imenso jardim numa montanha, caminho para a floresta por onde passavam muitos suicidas que faziam uso de suas árvores. Vivia com sua amada esposa Fuyu, até o dia em que se concretizou mais uma previsão de Itaro: um animal da floresta entra na casa e mata Fuyu. Assombro no povoado, prontidão permanente e tristeza profunda de Saburo, que, depois da tragédia, pendurou o quimono da esposa no espantalho do quintal, onde aquela veste branca ficava a balançar com os ventos. Suplicava em suas preces pela impossível volta da mulher e ajardinava calado, mas “nunca ouviu” uma resposta.

A beleza do jardim de Saburo mantinha a magia de fazer muitos decididos suicidas desistirem de seu intento, pois, ao vê-lo, a vida voltava a ser admirada. A vida de tão belas flores, a natureza que enternecia, fazendo eles tomarem o caminho de volta.

“Outra vez, Itaro desfez um besouro no chão e o observou”. Desta vez, reagiu sem naturalidade, mas com fúria sobre o que já não havia mais do inseto esmagado. Acalmou-se, “baixou os olhos, intenso, alumiado pelo fogo” e recebeu o vaticínio: ficaria cego. “A criada caiu em prantos, e o artesão prostrou-se pensando”. Pensando no porvir, na miséria, na mendicância...

A lembrança do pai, dizendo que a graça dos sopros divinos deviam ser acatados com humildade, lhe produziu conforto e resignação. Teve sonhos e, neles, debateu-se com os samurais e com o imperador, que o cega. Era um sonho premonitório. E, para evitar o peso de dois cegos na mesma casa, ele entregou Matsuda para ser esposa de um comerciante que a havia pedido em casamento. “Diria a todos que a menina entrara na floresta e se perdera”. Assim foi dito. As pessoas da aldeia se põem a procurá-la. Itaro finge aflição e participa das buscas. Saburo que sabia de tudo “prestava-se àquela mentira e acusava nada. Prosseguia”. O oleiro e o artesão encenam na mesma farsa.

Ao matar um gato, Itaro se assusta com a falta de previsão. Cessou o dom. E, desde então, seus leques não têm mais saída enquanto as adornadas taças de barro do oleiro são admiradas. Itaro sempre detestou o perfeccionismo de Saburo, e este, por sua vez, não esconde sua antipatia por Itaro. Vizinhos inconciliáveis.

Um dia, Itaro recebe ajuda espiritual de um mago que lhe recomenda passar sete dias e sete noites num poço para refletir, meditar. Foi descido, então, com cordas por homens que lhe retirariam após o prazo marcado. Começam os dias na escuridão do poço, “ventre do Japão”, na companhia de um animal feroz que lá caíra e com o qual teve de dobrar o desconforto. Um convívio tenso, meticuloso, alimentando a fera com o pouco que tinha e, assim, evitando virar alimento.

Saburo, que guardava, diante de todos, a imagem de bom homem, todos os dias ia escondido à boca do poço e jogava duas pedras para atormentar Itaro ou o animal, criando um inferno ao ambiente já infernal. No entanto, ninguém acreditaria pudesse fazer tal coisa o “oleiro, destituído de maldades” que só vivia da lembrança do amor da esposa, cuidando de embelezar o jardim. Certamente creditariam essa acusação a delírios de Itaro debaixo da terra.

Após o sétimo dia, Itaro é retirado do poço. Sobe agarrado ao animal com quem aprendera a conviver na escuridão. Todos temiam, todos se armaram para enfrentar a fera que subia junto. E, para surpresa, Itaro agarrava-se a nada. E a fera? A escuridão, o medo e a solidão criaram a fera que ele terminou por domar.

Saiu daquele poço um homem melhor e possuidor de um talento extraordinário para fazer leques de inigualável beleza, capazes de extasiar a própria natureza. E foi, ao fazer o leque perfeito, que veio uma revelação: Matsuda estaria viva e feliz com o marido. Não querendo perder a imagem da perfeição por entender que só os cegos enxergam com liberdade, indo além do que as coisas parecem ser, ele cega a si próprio

Aos poucos, os velhos vizinhos inimigos, fingindo adiar seu combate, vão se aproximando e falando coisas amenas. Os revezes por eles sofridos tiveram o poder de elevar seus espíritos até alcançarem a maturidade.

Floresta sombria

A floresta japonesa onde os suicidas vão dar cabo à vida é real e influenciou o autor. Lembrando o labirinto grego e os fios de Ariadne, ali são colocadas fitas pelo caminho para auxiliar o regresso dos arrependidos.

Valter Hugo Mãe, figura diletante, é bacharel em Direito, DJ, artista plástico e mais alguma coisa. Esse português nascido em Angola tem sido festejado nos meios literários e com justo motivo. Imprime em suas narrativas uma escrita distinta com beleza poética e muito apuro. É a tradição literária lusófona presente a cada geração.

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