Sobre Alexandre Maia Lago

Captura de tela de 2017 06 28 00 10 21ALEXANDRE MAIA LAGO é advogado graduado pela UFMA desde 1993. Um apaixonado por história, filosofia e literatura, possui uma coluna dominical no Jornal Pequeno dedicada a assuntos literários.

Avaliação do Usuário

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 
Pin It

Nesta divertida narrativa, a palavra é concedida à Loucura e, assim, ela aproveita para defender-se da má reputação que carrega. Afirma possuir virtudes em demasia, e dizer o contrário é assentar-se na obra ímpia dos homens. Nada mais.

Nascida nas Ilhas Afortunadas, onde se colhe sem ter havido semeadura e trabalho, onde a velhice e a doença são desconhecidas, teve por companheiras inseparáveis o Amor Próprio, a Adulação e o Esquecimento.

Não fosse ela, onde estaríamos? Que rumos e progressos teríamos reservados a nós mesmos? Acaso pode-se desmentir a assertiva de devermos a ela a civilização? Dizem ser loucuras as guerras, carregar em triunfo um ídolo, adorar uma estátua de pedra, ouro ou bronze, adorar um homem como um ser divino. Então, quem é a Loucura, senão a mãe dos impérios, das nações, “religiões, conselhos e os julgamentos dos homens”.

Ela tem variados tons, e são infinitas suas possibilidades dificultando muitas vezes reconhecê-la, principalmente, quando está na companhia da maioria dos homens.

Enquanto os racionais reclamam da impertinência dos que se elogiam, ela, a Loucura, se autoelogia justificando: “Não sei de ninguém que me conheça melhor que eu mesma”.

E a graça que ela proporciona a certas quadras da vida? Um bom banquete “deve ser temperado de loucura”. E se esta faltar, urge arrumar alguém que, “com umas tiradas grotescas e piadas loucas, consiga espantar da mesa o silêncio e o aborrecimento”. Ela a dar as cartas outra vez. Inclusive, às crianças, cuja graça maior não repousa na razão mas nas incongruências do juízo.

Ninguém leva em consideração o fardo que ela tira das consciências, muitas vezes tornando suportável a vida, pois não há mal nenhum quando nada se sente. E alega em seu benefício: “Todo mundo te vaia, não é nada, se tu te aplaudes”. Ninguém mais que ela proporciona essa vantagem.

Ah! A ilusão é tão doce, tão melhor que a realidade, essa estraga prazer que nos persegue a vida inteira. Afinal, quem é capaz de transformar uma penosa preocupação “nas mais diversas formas de volúpia”? Cícero até desejava a ilusão a fim de “nela encontrar o esquecimento” de todos os males.

Inegável também é a lúcida afirmação da própria Loucura na qual “o espírito do homem é feito de tal modo que pode ser dominado muito melhor pela mentira do que pela verdade”. Eis a razão do sono vir tão fácil se a pregação é sobre coisa séria. Se é palhaçada e embuste, diverte e, ainda, convence. Muitas vezes, até elege... “Uma mulher pode ser feia de dar medo, mas seu marido a tem como se fosse ela uma Vênus”. O que é isso senão a reconfortante ilusão, proporcionando o que a pobre realidade é incapaz.

E o que tem sido o viver para a raça humana? A Loucura afirma que se pudéssemos observar, desde a lua, os homens “em suas inúmeras agitações”, ter-se-ia a impressão de ver uma “multidão de moscas e mosquitos debatendo-se, lutando entre si, armando arapucas uns aos outros, roubando-se, brincando, pulando, nascendo, caindo e morrendo”. Embora de vida tão curta, pode causar muita tragédia “um animalzinho tão pequeno”. Seriam os homens sãos?

A explanação da Loucura chega ao fim após multidão de exemplos, comparações históricas e curiosas considerações enlouquecedoras ou convincentes.

Justiça seja feita, todos os homens foram, em maior ou menor intensidade, por ela aquinhoados. E os que negam isto com mais veemência, não passam de ingratos por ela tão generosamente agraciados...

Pin It