Sobre Alexandre Maia Lago

Captura de tela de 2017 06 28 00 10 21ALEXANDRE MAIA LAGO é advogado graduado pela UFMA desde 1993. Um apaixonado por história, filosofia e literatura, possui uma coluna dominical no Jornal Pequeno dedicada a assuntos literários.

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Em algum lugar do Oriente Médio, numa tribo pertencente aos domínios do rei Salomão, havia uma mulher cujo corpo escultural destoava do rosto feio. Não de uma feiura qualquer, mas estonteante, dessas que equivalem a uma promissória vencida.

 Ela nunca soube disso até um dia ver a si mesma num espelho que a irmã possuía escondido dela, por óbvias razões. Foi poupada pela família, até então, que evitava esse utensílio em casa.

Apaixona-se por um pastor de ovelhas, mas esse seduz a irmã mais nova dela. Descoberto, ele leva uma sova e é expulso da aldeia. E resolvem o problema arrumando outro pastor para a irmã, em substituição ao primeiro. Enquanto isso a irmã mais velha vai ficando na espera...

Nesse período, o velho e sorumbático escriba da tribo, às escondidas, ensina a ela uma coisa que mudará sua vida e definirá seu destino: a leitura.  Coisa alheia ao pai dela, à tribo e à quase todos da época. Ela, então, passa a dedicar-se à secreta novidade. Lia qualquer coisa, “pensamentos, versos, histórias...”.

Eis que, um dia, um emissário real, cumprindo tradição de alianças tribais, vem propor que a filha mais velha do patriarca da tribo torne-se uma das esposas do rei. Seria, então, a redenção finalmente? Parece que sim. E em grande estilo...

Não foi bem assim. Pois, apesar de ser uma das esposas do rei, teria pouca chance de conhecê-lo bem, uma vez que havia, nada menos, outras setecentas. Fora as concubinas. Além disso, o monarca empenhava-se em assuntos de Estado e, até, em questões do cotidiano como a célebre disputa entre duas mulheres pela maternidade de uma criança... Haja fôlego!

O tempo passa e nada do rei ter contato com ela. Essa demora leva a mulher a iniciar uma rebelião no harém e um quase golpe de Estado, igualmente malgrado. E foi justamente a descoberta de uma carta subversiva que propiciou uma guinada favorável à mulher. Pois Salomão mandou chamá-la. O propósito era confirmar ser ela a dona daquela caligrafia e texto bem redigido.

Impressionado por ser possível uma mulher com tal preparo, o rei lhe propõe que escreva um livro. Não um livro qualquer, mas um que contasse a história do povo ao qual pertencia o monarca, com todas as glórias e prodígios. O suntuoso templo que construíra, embora magnífico, era um legado físico. Queria algo para ser onipresente, que encerrasse uma ideia universal e eterna...

Com o início dos trabalhos, trava-se uma disputa entre seus textos sob a ótica feminina e a censura dos velhos escribas revisores. A primazia pela autoria do livro que consistiria na base moral da civilização ocidental.

A tarefa era árdua: pinçar narrativas soltas de “lendas, fatos históricos, preceitos religiosos, tudo mal redigido” e elaborar um novo texto. No início, ela questiona o motivo da mulher vir depois do homem na Criação e por que era responsável pela expulsão do Paraíso. Mas os machistas escribas recusam-se a esses reparos.

A sequência dos fatos por ela escritos chega ao profeta Samuel, à história dos reis, ao atormentado Saul que ama e odeia Davi ao mesmo tempo... Descreve Davi como um homem “excepcionalmente bonito, músico, poeta, guerreiro, amante de mulheres”, que derrotou os filisteus e fez tombar o gigante Golias. Castigado por Deus, perdoado, foi o pai do rei Salomão, seu esposo, o sábio.

Sendo testemunha privilegiada, escreveu outras coisas: a visita da bela rainha de Sabá que, tendo ouvido a respeito da riqueza, poder e discernimento do belo rei, empreendeu longa viagem só para conhecer bem de perto tanta sabedoria... E Salomão, sabido como era, preparou o palácio com apuro jamais visto, para melhor receber e cobrir de conselhos a visitante... Esse episódio inspirou a escriba para o Cântico dos Cânticos.

A história ganha um ritmo de thriller. Surge, na caravana da rainha de Sabá, um misterioso homem que se havia oferecido para guiar pelo deserto. Era aquele pastorzinho expulso há muitos anos da aldeia da escriba. Reapareceu agora como fanático religioso com plano de matar o rei. Ao conhecer os manuscritos por ela preparados, muda de ideia, resolvendo incendiá-los. É preso, julgado, mas libertado pela condescendência dela.

No fim, ela foge do palácio. Vai atrás do pastor e planeja seguir com ele para uma certa caverna, que ficava perto da aldeia dela. A história do livro se perdera naqueles manuscritos queimados. No entanto, o guardara na memória, e iria refazê-lo. Pouco antes de sair, ela profetiza e vê a inconsistência daquele reino. A perda do esplendor ocorreria no reinado do filho de Salomão. Viriam guerras e, com elas, o ocaso. Tudo estaria naquele livro...

Toda essa história se baseia no relato escrito de uma regressão, entregue por uma paciente a um certo psicólogo. Também fictício. 

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