Sobre Alexandre Maia Lago

Captura de tela de 2017 06 28 00 10 21ALEXANDRE MAIA LAGO é advogado graduado pela UFMA desde 1993. Um apaixonado por história, filosofia e literatura, possui uma coluna dominical no Jornal Pequeno dedicada a assuntos literários.

Avaliação do Usuário

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 
Pin It

Bárbara, a única mulher dos seis filhos do casal Godofredo e Elisa, parece ter nascido não só sob o signo da irresignação mas também do infortúnio.

Na São Luís do início do século XX, num dos casarões próprios de uma família abastada, vive a personagem central dessa história. O pai, comerciante, e a mãe, dona de casa, criam os filhos com a disciplina e o formalismo daqueles tempos. Diálogo com os filhos eram restritos apenas ao estritamente necessário. Talvez, a mímica faria melhor.

À medida que os filhos cresciam, suas decisões e opções pessoais produziam conflitos. E mesmo os percalços naturais do ambiente familiar se tornavam guerra, por uma insistência dos pais em medir as diferenças de temperamento e personalidade dos filhos com a mesma régua. A da sua própria medida, inclusive. Não havia consenso nem bom senso.

O ambiente de excessivo rigor, no entanto, sufocava o espírito altivo da pequena Bárbara. Num silêncio necessário, guardava essa contrariedade dirigindo-se, com frequência, a Santa Bárbara petições em busca da liberdade. Dada à divagação, Bárbara tinha o hábito de apreciar as tempestades, com seus relâmpagos e trovoadas, e esse tenebroso espetáculo da natureza exercia nela um curioso fascínio.

Sua ida para o internato religioso chegou a ser interpretado como súplicas atendidas, mas, logo percebeu que a figura dos pais tinha seus substitutos por lá.

A jovem buscava amenizar o ambiente opressivo refugiando-se na música, apurada pelas aulas de uma professora. As leituras, também, concorriam para a distração, incentivadas pelo padre Tarjet, figura humana extraordinária com quem ela criou reverentes laços afetivos nos tempos de convento.

Coisas definidoras começaram a acontecer na vida da jovem Bárbara. Um dia, correu para as bandas da Praia Grande a fim de observar de perto um incêndio e, lá, testemunhou o esforço da multidão de pobres para apagar o fogo que consumia o patrimônio dos ricos. Impressionou-lhe as fisionomias do povo, suadas e desvalidas. Nunca estivera tão perto dessas pessoas cuja ideia, absorvida em seu meio, era outra. Mas não estavam tão solidários agora na tragédia dos ricos? Foi para ela uma experiência transformadora, uma espécie de saída de Sidarta do palácio da família.

Durante um passeio de carruagem, avista um jovem que lhe desperta atenção. Bastou um olhar furtivo para Guilherme, que estava debaixo de uma árvore ouvindo um amigo ler um livro em alemão. Poucos dias depois, quando ela está na janela do casarão, ele passa, e esse reencontro sela o destino dos dois. Ele não era belo, mas sua simpatia espontânea supria. Não era ocioso, pois trabalhava numa casa comercial. No entanto, era pobre. E isso traria para Bárbara tempestades maiores que aquelas vindas do céu.

Começam as conversas noturnas às escondidas e uma troca de correspondências com cautelas, esgueiradas e apreensões de fugitivo.

Inúteis eram os sonhos idílicos fantasiados pelos enamorados, pois a pobreza e a desimportância social do rapaz era obstáculo intransponível. E, ao saber desse relacionamento, a família, que já era uma tensão permanente, acrescentou mais essa, porém a de maior proporção.

A essa altura, os problemas de outros filhos, cada qual à sua maneira, contribuíam para uma corrosão gradual daquele ambiente. Filho contra pai, mãe contra filha, tudo temperado com xingamentos e anátemas. Com a trilha sonora de muita gritaria. Enfim, um lugar para se passar bem longe.

Se não bastassem as crises familiares no casarão, o infortunado pretendente Guilherme é despedido e, sem conseguir emprego, descobre estar sendo difamado na praça comercial pelo ex-patrão. Ao tomar satisfação, um entrevero surge e, nos segundos necessários para o trágico, seu amigo Ribamar, que acompanhava tudo, atira no filho do ex-patrão.

Guilherme não foi o autor do homicídio, mas a palavra do ex-patrão, homem influente, vale mais que a verdade por aquelas bandas. Então, fica estabelecido que o culpado foi mesmo o jovem desempregado.

Streptus, os jornais e a fofoca sem fim! Era a São Luís daqueles dias. E Bárbara com coragem cerra fileira ao lado do jovem. Sai de casa e vai morar com uma velha senhora, cuja fama de rica avarenta e excêntrica escondia a verdade sobre a vida decadente dessa aristocrata.

Guilherme, já condenado antes mesmo do julgamento, é mandado para cumprir pena em outro Estado, artifício final dos familiares para afastar o jovem de Bárbara. Antes de partir, porém, um casamento clandestino entre os jovens é realizado na cadeia com a ajuda do velho e piedoso padre Tarjet. Como legado fica uma gravidez.

O que parece conforto no infortúnio, era só mais outro revés a caminho, pois a criança morre no parto. E segue a jovem arrastando a sua pesada cruz. Desde então, para ela, os dias de sol ou de chuva passam a ter o mesmo sabor de melancolia.

Um dia, uma inusitada descoberta. O motivo daquela velhinha, que lhe deu abrigo, viver quase na mendicância era nada menos que o vício. Em ópio, a cocaína da época, digamos. Entregou-se ao vício para se refugiar dos dissabores amorosos do passado, e nele encontrou sua ruína.

A jovem Bárbara, mulher de fibra, empreende um plano para curá-la à força, trancando-a em um quarto da casa. Depois de muita crise de abstinência, obtém bom êxito.

Os dias se passam sem notícias sequer do lugar para onde foi levado o jovem Guilherme na vastidão do país. Mas Bárbara espera, não desiste, é obstinada e nada mais tem a perder. A mulher que sempre admirou as tempestades, agora olha para o tempo sem qualquer perspectiva...

VIDA TEMPESTUOSA

O padre João Mohana, médico e sacerdote, com seu senso observador absorveu bem o espírito da cidade ao construir as personagens desse romance. Os vícios daquela sociedade não eram, obviamente, exclusividade de São Luís, mas, talvez, dela fossem mais difíceis apartar por enraizarem mais facilmente.

Bárbara é um caso à parte. Uma natureza forte, mas ingênua. Uma irreverência para lá de irresponsável, em que, por vezes, o que lhe soava como ato de independência não era mais que tolice. E ela viu bem o resultado disso.

O que faltou àquela família? Diálogo? Ou foi a criação deveras rígida? Ou eram todos espíritos irredentos? Erraram ao proibir, peremptoriamente, a relação amorosa da filha com um humilde comerciário, sendo ela filha de rico e tradicional comerciante?

Tentar explicar isso daria outro livro. Ademais, nesses assuntos até as premissas são desmentidas pelas conclusões, só para dizer o quanto o assunto é complexo. Afinal, como diz o livro: “Uma família é uma sociedade em miniatura. Cada temperamento é diferente do outro. Há o tímido, o superior, o feio, o elegante, o tagarela, o vulgar, o carnal, o pertinaz, o espiritual etc.”.

Para tirar suas conclusões, melhor ler este realista e forte romance que nos legou João Mohana.

Pin It