Sobre Alexandre Maia Lago

Captura de tela de 2017 06 28 00 10 21ALEXANDRE MAIA LAGO é advogado graduado pela UFMA desde 1993. Um apaixonado por história, filosofia e literatura, possui uma coluna dominical no Jornal Pequeno dedicada a assuntos literários.

Avaliação do Usuário

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 
Pin It

O país convivia com a desoladora procissão de mendigos. Andavam com os filhos “importunando todos os transeuntes, pedindo esmola” pelas cidades do interior e da capital. Havia ainda um assustador número de delinquentes entre eles.

Com a melhor das intenções, absoluto desprendimento e sem outra motivação “que não o bem-estar geral”, principalmente das crianças, um estudioso propôs algo de inaudita relevância ao reino. Afinal, não cabiam mais improvisos, mas, sim, soluções.

O projeto, fruto de longas e dedicadas reflexões, consistia em arrojado investimento estatal em parceria com a iniciativa privada visando erradicar, de vez, a figura da criança abandonada e mendicante. A fórmula? Simples: transformar essa criançada sem futuro em saboroso e nutritivo alimento. Tinha informações científicas seguras dessa possibilidade. Um alimento “completo, cozido, grelhado assado ou fervido”. Não havia provas, mas era lícito supor servir “igualmente para um guisado ou um ensopado”.

As tabernas atrairiam imensa clientela atrás de novas receitas, e um “talentoso cozinheiro, que saiba como agradar a seus comensais, encontrará um modo de torná-lo tão caro quanto lhe apeteça”.

E o ganho social? Esse não tem preço. As mães ficariam livres de um item oneroso e passariam a poder trabalhar honestamente em vez de esmolarem. Ficariam até mais amorosas, “aumentaria o cuidado e a ternura” com alguém que, em breve, será lucro e não despesa. Pois, no estado ideal “para uma boa mesa”, os restaurantes pagariam sempre bem.

As crianças seriam valorizadas nesse país. E o pobre aumentaria bastante o patrimônio, teria algo de valioso que lhes pertença e “serviria legalmente de garantia” em caso de necessidade.

Em tempos difíceis, “a exigência de nossa época” poderia desvirtuar um pouco a matriz econômica usando o couro que, “artificialmente tratado, daria admiráveis luvas para senhoras e botas de verão para finos cavalheiros”.

O autor da proposta faz questão de deixar claro não aceitar atrocidades, refutando a emenda que alguns queriam fazer estendendo essa política aos jovens de 12 a 14 anos. Seria maltratá-los, pois suas carnes são “geralmente duras e magras [...] devido ao contínuo exercício”. Para os temerosos, um alento: ficariam dez por cento das crianças reservadas para a reprodução, pois há sempre de se pensar no futuro da nação.

Pensando o futuro

Uma pena não termos copiado logo tão excelsa ideia. Naturalmente, já estaríamos, a essa altura, em confortável estágio de excelência social. Suspeito já termos tentado isso, mas foram tímidos esboços que, embora distintos na forma e na aplicação, guardam alguma semelhança no espírito e no resultado.

Mas é sempre tempo para o resgate de uma boa e original ideia. Inconcebível continuar com esses meninos importunando nos semáforos e nas mesas dos bares, principalmente na praia, enfeando as calçadas das grandes cidades nos colos de suas mães que, de braço esticado, em deselegante postura, atrapalham os transeuntes.

Já temos aliados naturais: os defensores da redução da maioridade penal para 16, 14, 12, 10 anos... e, é claro, os que já fazem a justa justiça das ruas com paus e pedras. Sempre há muita gente sensata nesse mundo. Ainda bem!

Quanto aos adolescentes sem sustento, a lei e o Estado não hão de esquecê-los à própria sorte. A indústria alimentícia, uma vez mais, dá a mão. Podem ser aproveitados, não como aprendizes, mas fazendo deles ração. Um ou outro, a depender da compleição física, até pode tornar-se um bom toicinho. Para que não se desperdicemos nada do potencial de nossa juventude.

  

Pin It

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar